quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Fisiologia da Alma

 



         Fisiologia, é a parte da biologia que investiga as funções orgânicas e processos ou atividades vitais. (1)
Etmologicamente, a palavra vem do grego, physiologia, "tratado da natureza das coisas segundo princípios físicos ou naturais. Ciência dos fenômenos da vida (Haller)." (2)
Faremos referência em nosso trabalho à fisiologia como as ações da alma, na dimensão dada por Kardec, de Espírito encarnado, o que eqüivale a dizer que analisaremos com este os fenômenos da própria vida.
Composição do ser humano.
O ser humano é composto pela alma ou Espírito encarnado com seu Perispírito que, ao encarnar necessita se relacionar ao Fluido Vital (onde reside o princípio vital) e ao Corpo Físico. Para que exista a alma, isto é, para que o Espírito reencarne, é necessária a presença destes elementos destacados e, é na interação deles, que estudaremos a Fisiologia da Alma.
"Há no homem três coisas; 1° - o corpo ou ser material análogo ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2° a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3° o laço que une a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito." (3)
O ESPÍRITO
Espírito é para nós "uma chama, um clarão ou uma centelha etérea". São eles (os Espíritos) incorpóreos e não imateriais; é a matéria quintessenciada, porém sem analogia para vos outros e tão etérea que escapa inteiramente ao alcance dos vossos sentidos". (3)
A exceção do Espírito, que tem sua origem no princípio inteligente e não pode atuar diretamente sobre a matéria, todos os demais procedem do Fluído Cósmico ou Universal.
A inteligência, o pensamento, a vontade, a consciência (onde estão impressas as leis morais), os pendores, a memória, e a sensibilidade são atributos do Espírito que, ao encarnar, ao ingressar no seu "cárcere fluídico", muda, temporariamente, algumas de suas ações, sua fisiologia, mas não sua essência, adquirindo umas e perdendo outras. Se de um lado, ao mergulhar na carne, a "centelha encarnada" encontra limitações, (4) ganha o Espírito o comando do corpo físico, com o objetivo de servir ao seu processo evolutivo, do qual também é o diretor. (FIG 1.)"O Espírito quer, o perispírito transmite e o corpo executa"; (3) impõe assim o Espírito a sua vontade e a ele são dirigidas as sensações e percepções. Quem sente é a alma. (FIG. 2).





Nesta mesma figura, vemos também como estas se direcionam ao Espírito, via perispírito e vice-versa, como a ação do Espírito alcança o corpo físico pela dupla polaridade perispiritual.
A vontade do Espírito é diretamente proporcional ao seu grau de evolução e coroa sua ação no corpo físico "não sendo o perispírito mais do que um agente de transmissão", pois que no Espírito é que está a consciência..." (grifos nossos) (3) (Fig. 2)
Portanto, é o Espírito que comanda a evolução, refletindo no perispírito a sua nova imagem, " porque o Espírito evolui, tudo o mais se transforma" (5) e diríamos mais: tudo se transforma sob a égide do Espírito, porque o perispírito é moldado pelo Espírito e molda, mantendo a forma do corpo físico; o perispírito é o plastificante do corpo, mas é configurado, ele também, pelo Espírito.
O PERISPÍRITO
É o envoltório do Espírito, veículo de todas as suas manifestações, (6) retirado do fluido universal de cada globo, tomando assim o seu "passaporte planetário" e a forma que lhe queira dar o Espírito, podendo também se tornar visível e tangível por "combinação de fluidos".(7)Da vasta sinonímia dada ao perispírito, destacamos corpo bioenergético, corpo bioplasmático, corpo espiritual, corpo perispiritual e psicossoma.
"O invólucro fluídico do ser depura-se, ilumina-se ou obscurece- se segundo a natureza elevada ou grosseira dos pensamentos em si refletidos. Qualquer ato e/ou qualquer pensamento repercutem-se e gravam-se no perispírito. Daí as conseqüências inevitáveis para a situação da própria alma, embora esta esteja sempre senhora de modificar o seu estado pela ação contínua que exerce sobre o seu invólucro." (8)
A constituição íntima do perispírito não é homogênea, variando em densidade do mais quintencenciado, próximo ao Espírito, ao mais denso, próximo ao corpo físico, estruturando-se assim, as várias camadas, zonas ou envoltórios, dando-lhe continuidade; além disso, ele varia de densidade, de Espírito para Espírito, seja encarnado ou desencarnado, de acordo com seu grau evolutivo, e portanto, de seu padrão vibratório.
Falta unicidade de conceitos, para o termo "duplo etérico", sendo considerado como: uma "cópia etérica" da matéria, uma camada energética, o próprio perispírito ou uma extensão dele, uma de suas "capas", mais próxima ao corpo físico, uma estrutura individualizada, ou ainda, uma emanação áurica. (4) (6) (9) (16) Nas Obras Básicas parece ter sido comentado uma única vez, sem muita relevância. (6)
"O Perispírito preside às manifestações anímico-mediúnicas, desdobra-se durante o transe magnético, sonambúlico e mediúnico, quando então projeta-se na dimensão extra-física, visita colônias espirituais e torna-se, por vezes, visível em lugares distantes" (9) e também tangível.
Como a alma está vinculada ao corpo físico, durante estas projeções mantêm-se a ele ligado por seu laço fluídico ao qual se dá o nome de cordão fluídico ou de prata. Este somente se rompe após a morte, quando se extingue a atividade vital e por conseguinte , a vida.
O perispírito pode irradiar para fora do corpo físico sob a forma de emanações fluídicas na área vizinha ao corpo, mas que ultrapassam os seus limites, "devendo haver energia do próprio fluido vital em expansão", constituindo a nossa "fotosfera psíquica" (10), parecendo emergir do corpo físico na forma de campo ovóide ou aura, que "revela condições de saúde física, estado do Espírito, nível mental e caráter das pessoas.." (11)
"Na realidade, a memória não é mais do que uma modalidade de consciência"(12), mas na literatura espírita encontramos grande controvérsia em relação a sua localização, quer no Espírito encarnado, quer no desencarnado, situando-a ora no Espírito, ora no perispírito.
Estivesse ela permanentemente no perispírito, o que não me parece lógico, ao evoluir o Espírito e mudar de orbe, a perderia totalmente, pois que ele a retira do fluido universal de cada globo descartando-se desse seu "passaporte planetário" e tomando outro, transformar-se-ia assim num Espírito novamente simples e ignorante, retrogradando. Isto não seria possível, pois contrairia a Lei do Progresso e o processo reencarnatório perderia todo o sentido, não passando de uma vivência nulificada.
"Em conseqüência da diminuição de seu estado vibratório, o Espírito, cada vez que toma posse de um corpo novo, de um cérebro virgem de toda a imagem, acha-se na impossibilidade de imprimir as recordações acumuladas das suas vidas precedentes." (12).
"Permanecemos com Delanne quando nos diz que o inconsciente é um território comum da alma e do corpo, confirmando assim que o perispírito é sua sede. (grifo nosso)
(FIG. 2) Kardec diz que: O Espírito tem no perispírito o seu almoxarifado, seu armazém de memórias e aquisições."(10)
Assim, a memória de vivências passadas, ocorridas quando do Espírito encarnado ou na erraticidade está no Espírito, mas ao reencarnar, sitia-se no inconsciente e, portanto, no perispírito, lugar comum entre a alma e o corpo físico.(FIG. 2)
Calcamos as palavras de Jorge Andréa quando diz que "não existe nada mais consciente do que o inconsciente", assim, esta memória do inconsciente atual, de vivências passadas e da nossa missão, entendo-se o termo como os propósitos estabelecidos na espiritualidade, embora estando no inconsciente, nos influenciam e nos fustigam, como aptidões, tendências, instintos e outras experienciações reencarnatórias, constituindo-se assim, nos embates com o consciente, o "VOCÊ DECIDE" do Espírito, no uso pleno do seu livre-arbítrio. (FIG. 2)
"O Espírito é o dono da memória e a coloca à sua disposição onde lhe fica mais conveniente, funcional. Dela não se exonera porque ela esteja arrumada na estante de sua biblioteca. E que ele sendo dono é que a usa." (10)
Durante o sono parcialmente desprendido e gozando da liberdade do corpo físico, ele novamente se lembra, recobrando sua memória, e nós sonhamos, sendo "o sonho o que o Espírito viu durante o sono", (3) e que nos chega, como premonições uns, e outros, na sua grande maioria, com distorções e metáforas.
A aprendizagem não se perde e convenientemente filtrada continuará na consciência para o seu uso constante, sendo dela inalienável. Resgatando seus débitos, resolvendo suas pendências, educando-se e depurando-se assim o Espírito, não há mais necessidade da retenção desse lixo biográfico, de vez que já dele se serviu, para a sua evolução, transformando-se agora no inútil arquivo de contas pagas, memória da qual ele se despoja, mas as aquisições daí advindas, permanecem incorporadas ao Espírito, também definitivamente.
"É nele (no perispírito) que se encontra temporariamente arquivada a memória extra-cerebral." (9) (grifo nosso)
Por vezes têm-se a sensação de ter estado num local antes visto (Déjà-vu) ou porque lá estivemos desdobrados e voltamos fisicamente, ou nos vem como um "escape", porque ali vivemos numa existência anterior ou mesmo, numa terceira hipótese, previamente demos "uma espiada no futuro" e agora vivenciamos o "replay" do acontecimento previsto. Há várias expressões do déjà-vu como algo acontecido, entendido, sentido, ouvido, e vivido." (4)(7)(15)
FLUIDO VITAL
"A força vital impregna, simultaneamente, a partir do primeiro instante da concepção, tanto a matéria como o perispírito. Assim é que este, deixando-se impregnar pelo fluido vital, nele se transfundindo, a ele se unindo intimamente, materializa-se bastante para tornar-se então o suporte, o regulador, dessa própria energia." (10)
O Espírito é o dínamo, o perispírito é o motor e o fluido vital é a carga, a eletricidade animalizada de nossas baterias, responsável pela "manutenção e reparação da matéria viva" (13); cessada a carga, deixa de haver vida e obviamente sobrevem a morte, por esgotamento do fluido vital, mas também pode se dar, embora com sua presença, por falência orgânica súbita, "ficando ele impotente para transmitir o movimento da vida." (9).
A distribuição do fluido vital é variável de ser para ser, de célula para célula, de acordo com a herança repassada pela matriz perispirítica e vinculada a sua boa repartição, a saúde física e psíquica, podendo também se transmitir de um para outro indivíduo.
Corpo Físico
D) CORPO FÍSICO _Centros Vitais. (FIG.3)


Nós, Espíritos encarnados ou desencarnados, vivemos mergulhados no Fluido Cósmico ou Universal, energia que absorvemos pela alimentação, respiração e pelos centros vitais, que agem como acumuladores e distribuidores de energia, transitando por eles os fluidos energéticos, de um para os outros e assim transmitindo- se a todo o organismo.
Do L. E. (3), podemos extrair; " A vista da alma ou do Espírito (...) carece de foco próprio. Se reportam-se ao corpo, este foco lhes parecem estar nos centros onde maior é a atividade vital, principalmente no cérebro, na região do epigastro ou no órgão que consideram o ponto de ligação mais forte, entre o Espírito e o corpo." Neste resumo, quando Kardec se refere aos centros onde maior é a atividade vital e ao ponto de ligação mais forte, entre o Espírito e o corpo, estava falando, segundo podemos deduzir, dos centros vitais ou de força.
"Estes centros energéticos são acumuladores e distribuidores de energia, "estações de força" eletromagnética, "que controlam a aparelhagem fisiológica e psicológica e as reações somáticas que lhes exteriorizam os efeitos de intercâmbio." (14) (FIG. 3)
Localizam-se essas centrais energéticas (centros de força, chackras, chacras, rodas energéticas, vórtices energéticos) no perispírito e vibram sintonizados uns com os outros e são tanto mais vibrantes e brilhantes quanto mais evoluído é o Espírito, sendo responsáveis pela distribuição de energia vital no corpo físico. Para isso, possuindo fortes ligações específicas com todo sistema nervoso e, mais particularmente sobre o sistema nervoso central, glândulas e plexos.
Estão em constante rotação, que é tanto maior quanto mais nobre é a sua função, portanto, os que se localizam na cabeça e que presidem a vida espiritual tem maior rotação do que os que dirigem a vida vegetativa, e que se situam nas partes inferiores do tronco.
A "abertura dos chacras" só pode ser feita pelo Espírito, por seu aperfeiçoamento moral, cujas leis estão impressas na sua consciência. (9)
Alma desequilibrada corresponde a centros vitais desequilibrados, influindo sobre o comando que exercem sobre os órgãos fundamentais da vida, sendo os mais importantes entre aqueles: (FIG. 3)
Centro vital genésico. ( Hipogástrico).
Localiza-se na região hipogástrica e, para nós, é estudado junto com o Básico, dada às semelhantes funções e relacionamentos. Controla a atividade sexual e a ativação dos demais centros vitais. "Dirige o santuário da reprodução e engendra recursos para o perfeito entrosamento dos seres na reconstrução dos ideais de engrandecimento e beleza em que se movimenta a Humanidade,"(14) "guiando a modelagem de novas formas entre os homens ou estabelecimento de estímulos criadores, com vistas ao trabalho, à associação e à realização entre as almas." (15)
Centro vital esplênico. (Mesentérico).
Localiza-se na região esplênica, portanto, à esquerda do abdomen. É responsável pela regulação das reservas sangüíneas, a composição de seus elementos e ainda é vitalizador das defesas orgânicas.
Centro vital gástrico.(Umbilical ou Solar).
Localiza-se no epigastro e é responsável pela absorção de alimentos, seu metabolismo e a liberação de suas respectivas energias; influencia todos os órgãos abdominais, excetuando-se o baço.Centro vital cardíaco.
Localizado na região précordial e é responsável pela atividade pulmonar, cardíaca e circulatória; regula as emoções e os sentimentos.
Centro vital laríngeo.

Localizado na garganta física e preside à fonação, a audição e a respiração e as glândulas tireóide, paratireóide e o timo.
Centro vital frontal (cerebral).
Situado no lobo frontal, governando a córtex cerebral e é responsável pelo controle da inteligência, dos sentidos e das glândulas endócrinas via hipófise.
Centro vital coronário.
Situa-se na parte central do cérebro e é referido como "sede da mente", "santuário da vida", "centro vital regente", denotando sua ascensão sobre os demais centros vitais, sua mais intensa relação com o Espírito, de onde recebe o comando , transferindo-o.
"Responsável pelo processo da razão, da morfologia, do metabolismo geral, da estabilidade emocional e funcional da alma no caminho evolutivo." (14)
O centro coronário liga-se à Epífise ou glândula Pineal e tem nela seu substrato anátomo-fisiológico, cujo hormônio é a melatonina, cuja secreção aumenta no escuro. É a "glândula da vida espiritual". Está localizada na zona central do cérebro.
Sob o ponto de vista médico seria uma glândula vestigial e responsável "pela regulação de crescimento, do desenvolvimento da altura e do peso, do aparelho sexual e do desenvolvimento piloso." (16) Pouco se evolui no conhecimento de sua fisiologia, mas teria influência em toda a cadeia glandular via hipotálamo. (19)
André Luiz lhe dá novas dimensões (17), quais sejam:
1) É a glândula da vida mental; acorda as forças criadoras e é o mais avançado laboratório de elementos psíquicos da criatura terrestre;
2) É igualmente responsável pela recapitulação da sexualidade da criatura, examinando o inventário de suas paixões vividas em outra época, que aparecem sobre fortes impulsões.
3) Preside os fenômenos nervosos da emotividade.
4) Segrega "unidades-força", que vão atuar de maneira positiva nas energias geradoras.
5) Conserva ascendência sobre todo o sistema endócrino ("glândula mestra").
6) Comanda as forças subconscientes sob a determinação direta da vontade.
O organismo para o seu funcionamento, exige consumo de energia. Essa energia é obtida através de reações metabólicas, ocorridas sobre a matéria assimilada durante o processo de nutrição.
As mitocôndrios são as centrais energéticas das células, "desenvolvendo importantes atividades nos processos metabólicos celulares, pois a elas cabe a função de reprocessar a energia contida nas moléculas dos compostos orgânicos obtidos pela alimentação, transferindo o acúmulo energético à outras moléculas especializadas para armazenamento e liberação rápida de energia, representados principalmente pelo ATP (trifosfato de adenosina). As mitocôndrios são produtoras de moléculas de ATP." (20)
"Através dos bióforos ou unidades de força psicossomática que atuam no citoplasma, o espírito encarnado imprime suas características evolutivas a todas as células do corpo físico. Compete a Epífise executar essa tarefa de sintonia, projetando sobre as células e consequentemente sobre o corpo, os estados da mente, que estará enobrecendo ou agravando a própria situação de acordo com a escolha do bem ou do mal." (15) (18)
A ação do Espírito será exercida segundo a seqüência;
ESPÍRITO-PERISPÍRITO-FLUIDO VITAL-CORPO FÍSICO (Epífise-Célula-Bióforo-Mitocôndrio) do que resultará acúmulo ou dispersão de energia.
Portanto todas as estruturas do corpo físico, representadas por sistemas, aparelhos, órgãos e células, enfim todo o organismo tem sua representatividade no perispírito, modelo organizador biológico, sob a direção do Espírito que é o comandante de todas as suas ações .
O corpo humano "é um universo em miniatura" (21) é uma máquina pensante, obra idealizada pelo nosso Criador, e cada vez que a ciência vai desvendando seus mistérios e estreitando seus laços com o microcosmos, assim também como com o macrocosmos, também vai descortinando a presença de Deus.
Ele nos criou Espíritos simples, ignorantes e imortais, para que sejamos Espíritos perfeitos, por nossos próprios méritos. Para isso, com sua bondade, justiça e misericórdia, nosso Criador não nos pune, nos dando sempre oportunidades. Essa é, exatamente agora, uma nova oportunidade, que temos como Espíritos encarnados, para que com o tesouro de nossas aquisições e a propulsão dos nossos propósitos, possamos comandar, com a fisiologia da alma o nosso corpo físico, "empréstimo divino" e orientados pelo "mapa da regeneração", nos direcionarmos para a perfeição, estabelecida como meta infinita, por esta Força Poderosa que a tudo determina, e dentro deste prisma seremos todos, não o que queremos, mas o que precisamos e teremos que ser.
Nosso mestre Jesus nos trouxe essa diretriz, no seu Evangelho:
-"SEDE PERFEITOS."
Façamos do nosso corpo, o veículo de nossa regeneração; a estrada é longa, não tardemos no caminho.
" (...) Agora homem que sou, pelo foro Divino, vivo de corpo em corpo a forjar meu destino, que me leve a transpor o clarão das estrelas!..."
(Chico Xavier; pelo Espírito Adelino Fontoura).(22)

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FISIOLOGIA DA ALMA - RAMATIS




1. A Alimentação Carnívora e o Vegetarianismo

PERGUNTA: — Em vista das opiniões variadas e por vezes contraditórias, tanto entre as correntes religiosas e profanas como até entre a classe médica, quanto ao uso cia carne dos animais como alimento, gostaríamos que nos désseis amplos esclarecimentos a respeito, de modo a chegarmos a uiva conclusão clara e lógica sobre se o regime alimentar carnívoro prejudica ou não o nosso organismo ou influi de qualquer modo para que seja prejudicada a evolução do nosso espírito. Preliminarmente, devemos dizer que no Oriente — como o afirmam muitas das pessoas antivegetarianas — a abstenção do uso da carne como alimento parece prender-se apenas a unia tradição religiosa, que os ocidentais consideram como uma absurdidade, dada a diferença de costumes entre os dois povos. Que nos dizeis a respeito?

RAMATÍS:— A preferência pela alimentação vegetariana, no Oriente, fundamenta-se na perfeita convicção de que, à medida que a alma progride, é necessário, também, que o vestuário de carne se lhe harmonize ao progresso espiritual já alcançado. Mesmo nos remos inferiores, a nutrição varia conforme a delicadeza e sensibilidade das espécies. Enquanto o verme disforme se alimenta no subsolo, a poética figura alada do beija-flor sustenta-se com o néctar das flores. Os iniciados hindus sabem que os despojos sangrentos da alimentação carnívora fazem recrudescer o atavismo psíquico das paixões animais, e que os princípios superiores da alma devem sobrepujar sempre as injunções da matéria. Raras criaturas conseguem libertar-se da opressão vigorosa das tendências hereditárias do animal, que se fazem sentir através da sua carne.

PERGUNTA:— Mas a alimentação carnívora, principalmente no Ocidente, já é um hábito profundamente estratificado no psiquismo humano. cremos que estamos tão condicionados organicamente à ingestão de carne, que sentir-nos-íamos debilitados ante a sua mais reduzida dieta!

RAMATÍS:— Já tendes provas irrecusáveis de que podeis viver e gozar de ótima saúde sem recorrerdes à alimentação carnívora. Para provar o vosso equívoco, bastaria considerar a existência, em vosso mundo, de animais corpulentos e robustos, de um vigor extraordinário e que, entretanto, são rigorosamente vegetarianos, tais como o elefante, o boi, o camelo, o cavalo e muitos outros. Quanto ao condicionamento biológico, pelo hábito de comerdes carne, deveis compreender que o orgulho, a vaidade, a hipocrisia ou a crueldade, também são estigmas que se forjaram através dos séculos, mas tereis que eliminá-los definitivamente do vosso psiquismo. O hábito de fumar e o uso imoderado do álcool também se estratificam na vossa memória etérica; no entanto, nem por isso os justificais como necessidades imprescindíveis das vossas almas invigilantes.
Reconhecemos que, através dos milênios já vividos, para a formação de vossas consciências individuais, fostes estigmatizados com o vitalismo etérico da nutrição carnívora; mas importa reconhecerdes que já ultrapassais os prazos espirituais demarcados para a continuidade suportável dessa alimentação mórbida e cruel. Na técnica evolutiva sideral, o estado psicofísico do homem atual exige urgente aprimoramento no gênero de alimentação; esta deve corresponder, também, às próprias transformações progressistas que já se sucederam na esfera da ciência, da filosofia, da arte, da moral e da religião.O vosso sistema de nutrição é um desvio psíquico, uma perversão do gosto e do olfato; aproximai-vos consideravelmente do bruto, nessa atitude de sugar tutanos de ossos e de ingerirdes vísceras na feição de saborosas iguanas. Estamos certos de que o Comando Sideral está empregando todos os seus esforços a fim de que o terrícola se afaste, pouco a pouco, da repugnante preferência zoofágica.

PERGUNTA:— Devemos considerar-nos em débito perante Deus, devido à nossa alimentação carnívora, quando apenas atendemos aos sagrados imperativos naturais da própria vida?

RAMATÍS:— Embora os antropófagos também atendam aos “sagrados imperativos naturais da vida”, nem por isso endossais os seus cruentos festins de carne humana, assim como também não vos regozijais com as suas imundices à guisa de alimentação ou com as suas beberagens repugnantes e produtos da mastigação do milho cru! Do mesmo modo como essa nutrição canibalesca vos causa espanto e horror, também a vossa mórbida alimentação de vísceras e vitualhas sangrentas, ao molho picante, causa terrível impressão de asco às humanidades dos mundos superiores. Essas coletividades se arrepiam em face das descrições dos vossos matadouros, charqueadas, açougues e frigoríficos enodoados com o sangue dos animais e a visão patética de seus cadáveres esquartejados. Entretanto, a antropofagia dos selvagens ainda é bastante inocente, em face do seu apoucado entendimento espiritual; eles devoram o seu prisioneiro de guerra, na cândida ilusão de herdar-lhe as qualidades intrépidas e o seu vigor sanguinário. Mas os civilizados, para atenderem às mesas lautas e fervilhantes de órgãos animais, especializam-se nos caldos epicurísticos e nos requintes culinários, fazendo da necessidade do sustento uma arte enfermiça de prazer. O silvícola oferece o tacape ao seu prisioneiro, para que ele se defenda antes de ser moído por pancadas; depois, rompe-lhe as entranhas e o devora, famélico, exclusivamente sob o imperativo natural de saciar a fome; a vítima é ingerida às pressas, cruamente, mas isso se faz distante de qualquer cálculo de prazer mórbido. O civilizado, no entanto, exige os retalhos cadavéricos do animal na forma de suculentos cozidos ou assados a fogo lento; alega a necessidade de proteína, mas atraiçoa-se pelo requinte do vinagre, da cebola e da pimenta, desculpa-se com o condicionamento biológico dos séculos em que se viciou na nutrição carnívora, mas sustenta a lúgubre indústria das vísceras e das glândulas animais enlatadas; paraninfa a arte dos cardápios da necrofagia pitoresca e promove condecorações para os “mestres-cucas” da culinária animal!Os frigoríficos modernos que exaltam a vossa “civilização”, construídos sob os últimos requisitos científicos e eletrônicos concebidos pela inteligência humana, multiplicam os seus aparelhamentos mais eficientes e precisos, com o fito da matança habilmente organizada. Notáveis especialistas e afamados nutrólogos estudam o modo de produzir em massa o “melhor” presunto ou a mais “deliciosa” salsicharia à base de sangue coagulado!
Os capatazes, endurecidos na lide, dão o toque amistoso e fazem o convite traiçoeiro para o animal ingressar na fila da morte; magarefes exímios e curtidos no serviço fúnebre conservam a sua fama pela rapidez com que esfolam o animal ainda quente, nas convulsões da agonia; veterinários competentes examinam minuciosamente a constituição orgânica da vítima e colocam o competente “sadio”, para que o “ilustre civilizado” não sofra as conseqüências patogênicas do assado ou do cozido das vísceras animais!Turistas, aprendizes e estudantes, quando visitam os colossos modernos que são edificados para a indústria da morte, onde os novos “sansões” guilhotinam em massa o servidor amigo, pasmam-se com os extraordinários recursos da ciência moderna; aqui, os guindastes, sob genial operação mecânica, erguem-se manchados de rubro e despejam sinistras porções de vísceras e rebotalhos palpitantes; ali, aperfeiçoados cutelos, movidos por eficaz aparelhamento elétrico, matam com implacável exatidão matemática, acolá, fervedores, prensas, esfoladeiras, batedeiras e trituradeiras executam a lúgubre sinfonia capaz de arrepiar os velhos caciques, que só devoravam para matar a fome! Em artísticos canais e regos, construídos com os azulejos da exigência fiscal, jorra continuamente o sangue rútilo e generoso do animal sacrificado para a glutonice humana!
Mas o êxito da produção frigorífica ainda melhor se comprova sob genial disposição: elevadores espaçosos erguem-se, implacáveis, sobrecarregados de suínos, e os depositam docemente sobre o limiar de bojudos canos de alumínio, inclinados, na feição de “montanha-russa.” Rapidamente, os suínos são empurrados, em fila, pelo interior dos canos polidos e deslizam velozmente, em grotescas e divertidas oscilações, para mergulharem, vivos, de súbito, nos tanques de água fervente, a fim de se ajustarem à técnica e à sabedoria científica modernas, que assim favorecem a produção do “melhor” presunto da moda!Quantos suínos precisarão ainda desliza pela tétrica montanha-russa, criação do mórbido gênio humano, para que possais saborear o vosso “delicioso” presunto no lanche do dia!

PERGUNTA: — Esses métodos eficientes e de rapidíssima execução na matança que se processa nos matadouros e frigoríficos modernos, evitam os prolongados sofrimentos que eram comuns no tipo de corte antigo. Não é verdade?

RAMATÍS: — Pensamos que o senso estético da Divindade há se sempre preferir a cabana pobre, que abriga o animal amigo, ao matadouro rico que mata sob avançado cientificismo da indústria fúnebre. As regiões celestiais são paragens ornadas de luzes, flores e cores, onde se casam os pensamentos generosos e os sentimentos amoráveis de suas humanidades cristificadas. Essas regiões também serão alcançados, um dia, mesmo por aqueles que constroem os tétricos frigoríficos e os matadouros de equipo avançado, mas que não se livrarão de retornar à Terra, para cumprir em si mesmos o resgate das torpezas e das perturbações infligidos ao ciclo evolutivo dos animais. Os métodos eficientes da matança científica, mesmo que diminuam o sofrimento do animal, não eximem o homem da responsabilidade de haver destruído prematuramente os conjuntos vivos que também evoluem, como são os animais criados pelo Senhor da Vida! Só Deus tem o direito de extingui-los, salvo quando eles oferecem perigo para a vida humana, que é um mecanismo mais evoluído, na ordem da Criação.

PERGUNTA: — Surpreendem-nos as vossas asserções algo vivas; muita gente não compreende, ainda, que essa grave impropriedade da alimentação carnívora causa-nos tão terríveis conseqüências! Será mesmo assim?

RAMATÍS: — O anjo, já liberto dos ciclos reencarnatórios, é sempre um tipo de suprema delicadeza espiritual. A sua tessitura diáfana e formosa, e seu cântico inefável aos corações humanos não são produtos dos fluidos agressivos e enfermiços dos “patê de foie-gras” (pasta de fígado hipertrofiado), da famigerada “dobradinha ao molho pardo” ou do repasto albumínico do toucinho defumado!
A substância astral, inferior, que exsuda da carne do animal, penetra na aura dos seres humanos e lhes adensa a transparência natural, impedindo os altos vôos do espírito. Nunca havereis de solucionar problema tão importante com a doce ilusão de ignorar a realidade do equívoco da nutrição carnívora e, quiçá, tarde demais para a desejada solução.
Expomo-vos aquilo que deve ser meditado e avaliado com urgência, porque os tempos são chegados e não há subversão no mecanismo sideral. E mister que compreendais, com toda brevidade, que o veículo perispiritual é poderoso ímã que atrai e agrega as emanações deletérias do mundo inferior, quando persistis nas faixas vibratórias das paixões animais. E preciso que busqueis sempre o que se afina aos estados mais elevados do espírito, não vos esquecendo de que a nutrição moral também se harmoniza à estesia do paladar físico. Em verdade, enquanto os lúgubres veículos manchados de sangue percorrerem as vossas ruas citadinas, para despejar o seu conteúdo sangrento nos gélidos açougues e atender às filas irritadas à procura de carne, muitas reencarnações serão ainda precisas para que a vossa humanidade se livre do deslize psíquico, que sempre há de exigir a terapia das úlceras, cirroses hepáticas, nefrites, artritismo, enfartes, diabetes, tênias, amebas ou uremias!

PERGUNTA: — Por que motivo considerais que o homem se inferioriza ao selvagem, na alimentação carnívora, se ele usa de processos eficientes, que visam evitar o sofrimento do animal no corte? Não concordais em que o homem também atende à sua necessidade de viver e se subordina a um imperativo nutritivo que lhe requer uma organização industrial?

RAMATÍS: — O selvagem, embora feroz e instintivo, serve-se da carne pela necessidade exclusiva de nutrição e sem transformá-la em motivos para banquetes e libações de natureza requintada; entre os civilizados, entretanto, revivem esses mesmos apetites do selvagem mas, paradoxalmente, de modo mais exigente, servindo de pretexto para noitadas de prazer, sob as luzes fulgurantes dos luxuosos hotéis e restaurantes modernos. Criaturas ruidosas, álacres, e que apregoam a posse de genial intelecto, devoram, em mesas festivas, os cadáveres dos animais, regados pelos temperos excitantes, enquanto a orquestra famosa executa melodias que se casam aos odores da carne carbonizada ou do cozido fumegante! Mas sabei que as poéticas e sugestivas denominações dos pratos, expostas nos cardápios afidalgados, não livram o homem das conseqüências e da responsabilidade de devorar as vísceras do irmão inferior!
Apesar dos floreios culinários e do cardápio de iguanas “sui generis”, que tentam atenuar o aspecto repugnante das vitualhas sangrentas, os homens carnívoros não conseguem esconder a realidade do apetite desregrado humano! Aqui, a designação de “dobradinha à moda da casa” apenas disfarça o repulsivo ensopado de estômago de boi; ali, os sugestivos “miúdos à milanesa” são apenas retalhos de vesículas e fígado, traindo o sabor amargo da bílis animal; acolá, os “apetitosos rins no espeto” não conseguem sublimar a sua natureza de órgãos excretores da albumina e da uréia, que ainda se estagnam sob o cutelo mortífero. Embora se queira louvar o esforço do mestre culinário, o “mocotó à européia” não passa de viscoso mingau de óleo lubrificante de boi abatido; os “frios à americana” não vão além de vitualha sangrenta, e a “feijoada completa” é apenas um nauseante charco de detritos cozidos na imundície do chouriço denegrido, dos pés, películas e retalhos arrepiantes do porco, que ainda se misturam à uréia da banha gordurosa!
E evidente que se deve desculpar o bugre ignorante, que ainda se subjuga à nutrição carnívora e perverte o seu paladar, porque a sua alma atrasada ignora a soma de raciocínios admiráveis que ao civilizado já é dado movimentar na esfera científica, artística, religiosa e moral. Enquanto os banquetes pantagruélicos dos Césares romanos marcam a decadência de uma civilização, a figura de Gandhi, sustentado a leite de cabra, é sempre um estímulo para a composição de um mundo melhor.

PERGUNTA: — Deveríamos, porventura, violentar o nosso organismo físico, que é condicionado milenarmente à alimentação de carne? certos de que a natureza não dá saltos e não pode adaptar-se subitamente ao vegetarianismo, consideramos que seria perigosa qualquer modificação radical nesse sentido. O nosso processo de nutrição carnívora já é um automatismo biológico milenário. que há de exigir alguns séculos para uma adaptação tão insólita. Quais as vossas considerações a esse respeito?

RAMATÍS: — Não sugerimos a violência orgânica para aqueles que ainda não suportariam essa modificação drástica; para esses, aconselhamos gradativamente adaptações do regime da carne de suíno para o de boi, do de boi para o de ave e do de ave para o de peixe e mariscos. Após disciplinado exercício em que a imaginação se higieniza e a vontade elimina o desejo ardente de ingerir os despojos sangrentos, temos certeza de que o organismo estará apto para se ajustar a um novo método nutritivo de louvor espiritual. Mas é claro que tudo isso pede por começar e, se desde já não efetuardes o esforço inicial que alhures tereis de enfrentar, é óbvio que hão de persistir tanto esse tão alegado condicionamento biológico como a natural dificuldade para uma adaptação mais rápida. Mas é inútil procurardes subterfúgios para justificar a vossa alimentação primitiva e que já é inadequada à nova índole espiritual; é tempo de vos asseardes, a fim de que possais adotar novo padrão alimentício. Inegavelmente, o êxito não será alcançado do modo por que fazeis a substituição do combustível de vossos veículos; antes de tudo, a vossa alma terá que participar vigorosamente de um exercício, para que primeiramente elimine da mente o desejo de comer carne.Muitas almas decididas, que já comandam o seu corpo físico e o submetem à vontade da consciência espiritual, têm violentado esse automatismo biológico da nutrição de carne, do mesmo modo por que alguns seres extinguem o vício de fumar, sob um só impulso de vontade. Também estais condicionados ao vício da intriga, da raiva, da cólera, do ciúme, da crueldade, da mentira e da luxúria; no entanto, muitos se libertam repentinamente dessas mazelas, sob hercúleos esforços evangélicos.E reconhecendo a debilidade da alma humana para as libertações súbitas, e preparando-vos psiquicamente para repudiardes a carne, que temos procurado influenciar o mecanismo do vosso apetite, dando-vos conselhos cruamente e de modo ostensivo, de modo a que mais facilmente vos liberteis dos exóticos desejos de assados e cozidos, que, na realidade, não passam de rebotalhos e cadáveres que vos devem inspirar náuseas e aversão digestivas.
Daí as nossas preocupações sistemáticas, em favor do vosso bem espiritual, para que ante a visão, por exemplo, de dobradinhas “saborosas” que recendem ao molho odorante, reconheçais, na verdade, as tétricas cartilagens que protegem a região broncopulmonar do boi, em cujo local se processam as mais repugnantes trocas de matéria corrompida!

PERGUNTA:— Porventura os cuidadosos exames a que são submetidos os animais, antes do corte, não afastam a possibilidade de contaminarem o homem com qualquer enfermidade provável?

RAMATÍS: — Essa profilaxia de última hora não identifica os resíduos da enfermidade que possa ter predominado no animal destinado ao corte e que, evidentemente, não deixou vestígios iden-tificáveis à vossa instrumentação de laboratório. Apesar dos extremos cuidados de higiene e das medidas de prevenção nos matadouros, ainda desconheceis que a maioria dos quadros patogênicos do vosso mundo se origina na constituição mórbida do porco! O animal não raciocina, nem pode explicar-vos a contento as suas reais sensações dolorosas conseqüentes de suas condições patogênicas. O veterinário criterioso enfrenta exaustivas dificuldades para atestar a enfermidade do animal, enquanto que o ser humano pode relatar, com riqueza até de detalhes, as suas perturbações, o que então auxilia o diagnóstico médico. Assim mesmo, quantas vezes a medicina não descobre a natureza exata dos vossos males, surpreendendo-se com a eclosão de enfermidade diferente e que se distanciava das cogitações familiares! As vezes, um simples exame de urina, requerido para fins de somenos importância, revela a diabete que o médico desconhecia no seu paciente; um hemograma solicitado sem graves preocupações pode atestar a leucemia fatal! As enfermidades próprias da região abdominal, embora explicadas com riqueza de detalhes pelos enfermos, muitas vezes deixam o clínico vacilante quanto a situa uma colite, uma úlcera gastroduodenal ou um surto de ameba histolítica! Uma vez que no ser humano é tão difícil visualizar com absoluta precisão a origem dos seus males, requerendo-se múltiplos exames de laboratório para o diagnóstico final, muito mais difícil será conhecer-se o morbo que, no animal, não se pode focaliza na sintomatologia comum. Quantas vezes o suíno é abatido no momento exato em que se iniciou um surto patogênico, cuja virulência ainda não pôde ser assinalada pelo veterinário mais competente, salvo o caso de rigorosa autópsia e meticuloso exame de laboratório! Para isso evitar, a matança de porcos exigiria, pelo menos, um veterinário para cada animal a ser sacrificado.
Os miasmas, bacilos, germes e coletividades microbianas famélicas, que se procriam no caldo de cultura dos chiqueiros, penetram na vossa delicada organização humana, através das vísceras do porco, e debilitam-vos as energias vitais. Torna-se difícil para o médico situar essa incursão patogênica, inclusive a sua incubação e o período de desenvolvimento; por isso, mais tarde, há de considerar a enfermidade como oriunda de outras fontes patológicas.

PERGUNTA:— Julgais, porventura, que a alimentação carnívora possa trazer prejuízos físicos, de vez que a criatura já está condicionada, há milênios, a essa forma nutritiva? Qual a culpa do homem em ser carnívoro, se desde a sua infância espiritual ele foi assim condicionado, de modo a poder sobreviver no mundo físico?

RAMATÍS:— Repetimo-vos: nem todas as coisas que serviram para sustentar o homem, nos primórdios da sua vida no plano físico, podem ser convenientes, no futuro, quando surgem então novas condições morais ou psicológicas e a criatura humana pode cultuar concepções mais avançadas. Antigamente, os ladrões tinham as suas mãos amputadas, e arrancava-se a língua aos perjuros. Desde que vos apegais tanto ao tradicionalismo do passado, por que aos maledicentes modernos não aplicais essas disposições punitivas, brutais e impiedosas? Os antigos trogloditas comiam sem escrúpulo os retalhos de carne impregnados dos detritos do chão; no entanto, atualmente, usais pratos, talheres, e lavais o alimento. Certamente, alegareis a existência, agora, de um senso estético mais progressista, e que também tendes mais entendimento das questões de higiene humana; mas não concordais, no entanto, em que esse senso estético avançado está a pedir, também, a eliminação da carne de vossas mesas doentias!
Quando o homem ainda se estribava na ingestão de vísceras de animais, a fim de sobreviver ao meio rude e agressivo da matéria, a sua alma também era compatível com a rudeza do ambiente inóspito mas, atualmente, o espírito humano já alcançou noções morais tão elevadas, que também lhe compete harmonizar-se a uma nutrição mais estética. Não se justifica que, após a sua verticalização da forma hirsuta da idade da pedra, o homem prossiga nutrindo-se tão sanguinariamente como a hiena, o lobo, a raposa ou as aves de rapina! Além de brutal e detestável para aqueles que desejam se libertar dos planos inferiores, a carne é contínuo foco de infecção à tessitura magnética e delicada do corpo etéreo-astral do homem.

PERGUNTA: — Que dizeis dos novos recursos preventivos, nos matadouros modernos, em que se aplicam antibióticos para se evitar a deterioração prematura da carne? Essa providência não termina extinguindo indo qualquer perigo na sua ingestão?

RAMATÍS: — Trata-se apenas de mais um requinte doentio do vosso mundo, e que revela o deplorável estado de espírito em que se encontra a criatura humana. O homem não se conforma com os efeitos daninhos que provêm de sua alimentação pervertida e procura, a todo custo, fugir à sua tremenda responsabilidade espiritual. Mas não conseguirá ludibriar a lei expiatória; em breve, novas condições enfermiças se farão visíveis entre os insaciáveis carnívoros protegidos pela “profilaxia” dos antibióticos. Além do efeito deletério da carne, que se intoxica cada vez mais com a própria emanação astral e mental do homem desregrado, encontrar-vos-eis às voltas com o preciosismo técnico de novas enfermidades situadas no campo das alergias inespecíficas, como produtos naturais das reações antibióticas nos próprios animais preparados para o corte!Espanta-nos a contradição humana, que principalmente, produz a enfermidade no animal que pretende devorar e em seguida aplica-lhe a profilaxia do antibiótico!

PERGUNTA: — Podeis dar-nos um exemplo dessa contradição?

RAMATÍS: — Pois não? A vossa medicina considera que o homem gordo, obeso, hipertenso, é um candidato à angina e à comoção cerebral; classifica-o como um tipo hiperalbuminóide e portador de perigosa disfunção cárdio-hépato-renal. A terapêutica mais aconselhada é um rigoroso regime de eliminação hidrossalina e dieta redutora de peso; ministra-se ao homem alimentação livre de gorduras e predominantemente vegetal, e o médico alude ao perigo da nefrite, ao grave distúrbio no metabolismo das gorduras e à indefectível esteatose hepática. Cremos que, se os velhos pajés antropófagos conhecessem algo de medicina moderna e pudessem compreender a natureza mórbida do obeso e sua provável disfunção orgânica, de modo algum permitiriam que suas tribos devorassem os prisioneiros excessivamente gordos! Compreenderiam que isso lhes poderia causar enfermidades inglórias, em vez de saúde, vigor e coragem que buscavam na devora do prisioneiro em regime de ceva!
Mas o homem do século XX, embora reconheça a enfermidade das gorduras, devora os suínos obesos, hipertrofiados na engorda albumínica, para conseguir a prodigalidade da banha e do toucinho: primeiro os enferma em imundo chiqueiro, onde as larvas, os bacilos e microrganismos, próprios dos charcos, fermentam as substâncias que alimentam os oxiúros, as lombrigas, as tênias, as amebas colis ou histolíticas. O infeliz animal, submetido à nutrição putrefata das lavagens e dos detritos, renova-se em suas próprias dejeções e exsuda a pior cota de odor nauseante, tomando-se o transformador vivo de imundícies, para acumular a detestável gordura que deve servir às mesas fúnebres. Exausto, obeso, letárgico e suarento, o porco tomba ao solo com as banhas fartas e fica submerso na lama nauseante; é massa viva de uréia gelatinosa, que só pode ser erguida pelos cordames, para a hora do sacrifício no matadouro. Que adianta, pois, o convencional beneplácito de “sadio”, que cumpre ao veterinário, na autorização para o corte do animal, quando a própria ciência humana já permitiu o máximo de condições patogênicas!De modo algum essa tétrica “profilaxia” antibiótica livrar-vos-á da seqüência costumeira a que sois submetidos implacavelmente; continuareis a ser devorados, do mesmo modo, pela cirrose, a colite, a úlcera, a tênia, o enfarte, a nefrite ou o artritismo; cobrir-vos-eis, também, de eczemas, urticárias, pênfigo, chagas ou crostas sebáceas; continuareis, indubitavelmente, sob o guante da icterícia, da gota, da enxaqueca e das infecções desconhecidas; cada vez mais enriquecereis os quadros da patogenia médica, que vos classificarão como “casos brilhantes” na esfera principal das síndromes alérgicas.

PERGUNTA: — Uma vez que os animais e as aves são inconscientes e de fácil proliferação, a sua morte, para nossa alimentação, deve ser considerada crime tão severo, quando se trata de costume que já nasceu com o homem? Cremos que Deus foi quem estabeleceu a vida assim como ela é, e o homem não deve ser culpado por apenas seguir as suas diretrizes tradicionais, cumpria a Deus, na sua Augusta Inteligência, conduziras suas criaturas para outra forma de nutrição independente da carne: não é verdade?

RAMATÍS: — A culpa começa exatamente onde também começa a consciência quando já pode distinguir o justo do injusto e o certo do errado. Deus não condena suas criaturas, nem as pune por seguirem diretrizes tradicionais e que lhes parecem mais certas; não existe, na realidade, nenhuma instituição divina destinada a punir o homem, pois é a sua própria consciência que o acusa, quando desperta e percebe os seus equívocos ante a Lei da Harmonia e da Beleza Cósmica. Já vos dissemos que, quando o selvagem devora o seu irmão, para matar a fome e herdar-lhe as qualidades guerreiras, trata-se de um espírito sem culpa e sem malícia perante a Suprema Lei do Alto. A sua consciência não é capaz de extrair ilações morais ou verificar qual o caráter superior ou inferior da alimentação vegetal ou carnívora. Mas o homem que sabe implorar piedade e clamar por Deus, em suas dores; que distingue a desgraça da ventura; que aprecia o conforto da família e se comove diante da ternura alheia; que derrama lágrimas compungidas diante da tragédia do próximo ou de novelas melodramáticas; que possui sensibilidade psíquica para anotar a beleza da cor, da luz e da alegria; que se horroriza com a guerra e censura o crime, teme a morte, a dor e a desgraça; que distingue o criminoso do santo, o ignorante do sábio, o velho do moço, a saúde da enfermidade, o veneno do bálsamo, a igreja do prostíbulo, o bem do mal, esse homem também há de compreender o equívoco da matança dos pássaros e da multiplicação incessante dos matadouros, charquea-das, frigoríficos e açougues sangrentos. E será um delinqüente perante a Lei de Deus se, depois dessa consciência desperta, ainda persistir no erro que já é condenado no subjetivismo da alma e que desmente um Ideal Superior!
Se o selvagem devora o naco de carne sangrenta do inimigo, o faz atendendo à fome e à idéia de que Tupã quer os seus guerreiros plenos de energias e de heroísmos; mas o civilizado que mata, retalha, coze e usa a sua esclarecida inteligência para melhorar o molho e acertar a pimenta e a cebola sobre as vísceras do irmão menor, vive em contradição com a prescrição da Lei Suprema. De modo algum pode ele alega a ignorância dessa lei, quando a galinha é torcida em seu pescoço e o boi traumatizado no choque da nuca; quando o porco e o carneiro tombam com a garganta dilacerada; quando a malvadez humana ferve os crustáceos vivos, embebeda o peru para “amaciar a carne” ou então satura o suíno de sal para melhorar o chouriço feito de sangue coagulado.Quantas vezes, enquanto o cabrito doméstico lambe as mãos do seu senhor, a quem se afinizara inocentemente, recebe o infeliz animal a facada traiçoeira nas entranhas, apenas porque é véspera do Natal de Jesus! A vaca se lamenta e lambe o local onde matam o seu bezerro; o cordeiro chora na ocasião de morrer!Só não matais o rato, o cão, o cavalo ou o papagaio, para as vossas mesas festivas, porque a carne desses seres não se acomoda ao vosso paladar afidalgado; em conseqüência, não é a ventura do animal o que vos importa, mas apenas a ingestão prazenteira que ele vos pode oferecer nas mesas lúgubres.

PERGUNTA: — Como poderíamos vencer esse condicionamento biológico e mesmo psíquico, em que a nossa constituição orgânica é hereditariamente predisposta à alimentação carnívora? A ciência médica afirma que, à simples idéia de nos alimentarmos, o sistema endócrino já produz sucos e hormônios de simpatia digestiva à carne, e dessa sincronia perfeita entre o pensamento e o metabolismo fisiológico, achamos que fica demonstrada a fatal necessidade de nutrição carnívora. Em compensação, muitos vegetarianos hão revelado alergia a frutas ou hortaliças!Não é isso bastante para justificar a afirmativa de que onosso organismo precisa evidentemente de carne, a fim de poder-se desenvolver sadia e vigorosamente?

RAMATÍS: - O cigarro também não foi criado para ser fumado fanaticamente pelo homem; este é que imita a estultice dos bugres descobertos por Colombo e termina transformando-se num escravo da aspiração de ervas incineradas. A simples lembrança do cigarro, o vosso sistema endócrino, num perfeito trabalho psicofísico, de prevenção, também produz antitoxinas que devem neutralizar o veneno da nicotina e proteger-vos da introdução da fumaça fétida nos pulmões delicados. A submissão ao desejo de ingerir a carne é igual à submissão do fumante inveterado para com o seu comando emotivo, pois ele é mais vítima de sua debilidade mental do que mesmo de uma invencível atuação fisiológica. O viciado no fumo esquece-se de si mesmo e, por isso, aumenta progressivamente o uso do cigarro, acicatado continuamente pelo desejo insatisfeito, criando, então, uma segunda natureza, que se torna implacável e exigente carrasco.Comumente fumais sem notar todos os movimentos preliminares que vos comandam automaticamente, desde a abertura da carteira até a colocação do cigarro nos lábios descuidados; completamente inconscientes dessa realidade viciosa, já não fumais, mas sois fumados pelo cigarro, guiados pelo instinto indisciplinado. No vício da carne ocorre o mesmo fenômeno; viveis distanciados da realidade de que sois escravos do habito de comer carne. Se o sistema endócrino produz sucos e hormônios à simples idéia de ingerirdes carne, nem por isso se comprova que fostes especificamente criados para a nutrição carnívora. E apenas um velho hábito, que atendeu às primeiras manifestações da vida grosseira do homem das cavernas trogloditas e que, pelo vosso descuido, ainda vos comanda o mecanismo fisiológico, submetendo-o à sua direção.
As providências preventivas, no metabolismo humano, devem ser tomadas em qualquer circunstância; o hindu que se habituou à ingestão de frutos sazonados e vegetais sadios, também fabrica os seus hormônios e sucos digestivos à simples idéia da alimentação com que está acostumado. A diferença está em que ele carece de hormônios destinados à nutrição puramente vegetal, enquanto que vós tendes que produzi-los para a cobertura digestiva dos despojos da nutrição carnívora.Alegais que muitas pessoas se tornam enfermiças, ao se devotarem à alimentação vegetariana; em verdade, comprovais, assim, que sois tão estratificados pelo mau hábito de alimentação carnívora, que o vosso metabolismo fisiológico já não consegue assimilar a contento os frutos sadios e os vegetais nutritivos, manifestando-se em vós os pitorescos fenômenos de alergia. No entanto, desde que disciplinásseis a vontade e vigiásseis mentalmente o desejo mórbido, despertando da inconsciência imaginativa da nutrição zoofágica, logo sentir-vos-ieis mais libertos do indefectível condicionamento biológico carnívoro.
Por Fernando A. Moreira

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